'É difícil levar policiais ao banco dos réus, mas mais difícil é a Justiça ser justa', diz mãe de vítima do massacre de Paraisópolis após decisão por júri

  • 19/08/2026
(Foto: Reprodução)
Oito homens e uma mulher morrem pisoteados em baile funk em Paraisópolis, em São Paulo A Justiça de São Paulo decidiu que 12 policiais militares acusados pelas mortes de nove jovens durante uma ação policial no baile da DZ7, em Paraisópolis, na Zona Sul da capital, serão julgados pelo Tribunal do Júri. A decisão foi assinada na segunda-feira (17) pela juíza Ana Luisa Marcondes Esteves, da 1ª Vara do Júri do Foro Central Criminal. A decisão foi recebida com alívio, mas também com preocupação por familiares das vítimas. Eles questionam se o julgamento será capaz de responsabilizar todos os envolvidos na operação que terminou com a morte dos jovens. Maria Cristina Quirino Portugal é mãe de Denys Henrique Quirino Silva, de 16 anos, uma das nove vítimas. Ela atua no movimento de familiares das vítimas do massacre, "Os 9 que Perdemos". Para Cristina, a decisão representa uma conquista depois de quase sete anos de espera, mas o histórico de julgamentos envolvendo policiais aumenta o temor de uma nova frustração. “A gente sabe que é muito difícil levar policiais para o banco dos réus. E mais difícil ainda é fazer a Justiça ser justa com a gente quando chega nesse momento. Eu digo isso porque recentemente eu acompanhei o caso do menino Guilherme, que foi uma crueldade sem tamanho também. Mais uma vida que foi derrubada, e os réus, sendo policiais e ex-policiais, saíram impunes. E não é o primeiro júri que eu acompanho que saem absolvidos. Está acontecendo uma grande inversão de valores nesse momento de juízo.” Cristina citou o caso de Guilherme Silva Guedes, adolescente de 15 anos morto em junho de 2020, na Zona Sul de São Paulo. Em julgamento recente, o Tribunal do Júri da capital absolveu os ex-policiais militares Adriano Campos e Gilberto Rodrigues, acusados de participação na morte do adolescente. Vagner dos Santos Oliveira, conhecido como Biu, é tio de Luara Victória Oliveira, de 18 anos, a única mulher entre as nove vítimas do massacre. Para ele, o fato de apenas os policiais militares que participaram diretamente da operação serem levados ao Tribunal do Júri não encerra a discussão sobre a responsabilidade pelo que aconteceu. “A Justiça colocando apenas os soldados no Tribunal do Júri só demonstra que essa narrativa da classe dominante se perpetuar no poder, ela é nítida, é bem clara.” “Eu quero e desejo muito que a Justiça possa realmente colocar no Tribunal do Júri quem tem que ser colocado, que é o comandante da operação, que é o secretário da Segurança Pública, que é o governador da época do estado. Esses três são responsáveis diretamente pela chacina de Paraisópolis. Os soldados que estão indo para o Tribunal do Júri apenas operaram, fizeram a operação da lógica imposta por essas três pessoas que eu falei. Então a Justiça só demonstra que ela tem lado, que ela tem cor, que ela defende a classe dominante e que ela não está nem aí para a população brasileira no sentido de fazer uma justiça justa.” Segundo Biu, para os familiares, o Estado é o responsável pelas mortes. “Nada muda para mim. O sentimento de quem matou a Luara e mais os oito é o Estado. O Estado é o responsável direto.” Defesa dos policiais Cristina também teme que a estratégia de defesa dos policiais seja baseada na criminalização das vítimas e de seus familiares. Segundo ela, essa abordagem já teria contribuído para que policiais acusados de crimes fossem absolvidos. Cristina afirma que são poucos os casos em que policiais acusados de crimes são condenados e presos. “Mas, enfim, a gente vai seguir acreditando porque a gente vive numa democracia, né? E é um direito constitucional viver a vida, e o direito do meu filho foi interrompido. E por isso que eu vou seguir acreditando.” As nove vítimas As nove vítimas do episódio foram Bruno Gabriel dos Santos, Denys Henrique Quirino Silva, Dennys Guilherme dos Santos França, Eduardo da Silva, Gabriel Rogério de Moraes, Gustavo Cruz Xavier, Luara Victória Oliveira, Marcos Paulo Oliveira dos Santos e Mateus dos Santos Costa. Segundo a sentença, oito dos jovens morreram por asfixia mecânica por sufocação indireta. Mateus dos Santos Costa morreu em decorrência de traumatismo raquimedular. De acordo com a investigação policial, os jovens foram encurralados durante a ação da Polícia Militar e morreram após um tumulto no local. O caso ficou conhecido como o massacre de Paraisópolis. Reconstrução do Massacre de Paraisópolis: cerco policial e repressão contra os jovens aumenta. Reprodução/Arquitetura do Cerco Policial Nenhum dos nove mortos morava na comunidade de Paraisópolis

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/19/e-dificil-levar-policiais-ao-banco-dos-reus-mas-mais-dificil-e-a-justica-ser-justa-diz-mae-de-vitima-do-massacre-de-paraisopolis-apos-decisao-por-juri.ghtml


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